20 de fev de 2014

Lusco-fusco e recomeços





No mínimo, havia três cores no céu.  A beleza do arrebol sempre me encanta. Azul, laranja e riscos de vermelho que quase desenhavam formas. Aleatórias. Como de costume, me distraí na tentativa de dar sentido àqueles rabiscos de sol. Dias bonitos assim não combinam com coração partido, pensei. Tudo o que eu queria era uma atmosfera cinza com chuva - chuva fina, porque da grossa eu até gosto, pelo som que faz, e eu não queria estragar minhas miudezas de prazeres com a tristeza que eu carregava. Fiquei olhando, sem perceber o tempo, até o céu escurecer, quando vi centenas de luzes acenderem. Já era noite e também era fim de ano. Algum dia entre Natal e Ano Novo. Tempo bom pra recomeços. Passei a enxergar círculos de luzes, como um zumbido nos olhos. Eles se movem e eu me divirto na tentativa de controlar a direção que tomam. Tenho vocação pra distração. Nem lembro mais o que me levou a escrever esse texto. Sigo assim. Distraída vou vencendo.

20 de out de 2013

Receita para manter bons relacionamentos



Invista nos inícios.
Neles há pouco julgamento
mais abertura e tolerância.
Provoque vivências ilustres,
Crie memórias distintas.
Cative pela gentileza e atenção
Até sentir que a relação alcançou a beleza
da inesquecibilidade

Quando o convívio
e o desbotar da rotina
cansarem a relação
promova paciência e compreensão
procure relevar
as inevitáveis
máculas da decepção

E quando o fim
parecer iminente
mas persistir a esperança
de seguir em frente
tire logo isso da mente
e deixe o caso para lá

porque relações só permanecem boas
quando terminam antes de desmanchar

1 de jun de 2013

Sobre ser feliz




Tem dias em que aquele aperto no peito acompanha o primeiro abrir dos olhos. Aqueles dias em que a última coisa que se quer é despertar, sair do sono. Há falta de coragem pra viver. Cansaço de corpo e coração. Dias feito hoje. Fins de mês, inícios de semana. Recomeços.
Nesses dias, sempre me lembro das palavras que ouvi de um senhorzinho pra lá de oitenta anos, muito sabido das coisas, além de gentil, doce e elegante:
"- Ser feliz é não ter medo de acordar." A frase me intrigou. Ouvi, guardei e pensei muito mais do que cem vezes.
Ser feliz é, sem dúvidas, um dos maiores desejos humanos. Basta observar as mensagens de aniversários, natal, ano novo, casamentos, nascimentos. Todos querem para si e desejam para aqueles de que se gosta a felicidade. Felicidade. Do latim felicitatis. Sorte, ventura, bom êxito. Também chamada, o que poucos sabem, de Dita.
O que, para meu contentamento, já me foi um apelido. Por acaso e despretensiosamente, intitularam-me de felicidade. Sorrio mansamente feliz - sem mostrar os dentes - com o despropósito. Afinal, que bela coincidência! Sou admiradora de coincidências. E de belezas também, das pequeninas às colossais.
Pensar nas belezas da vida afasta os apertos do peito, o medo de acordar, a falta de coragem pra viver.
Saber enxergar os prazeres da vida e as pequenas alegrias do cotidiano, certamente traz mais pra perto a felicidade. Sentir o aconchego da cama em que se dorme, dos lençóis e travesseiros, ao acordar. A delícia dos sabores. O contato da água na boca, no corpo todo. O frescor dos cheiros. A energia do calor.  Jamais perder a vista das paisagens. A vibração dos sons. Passarinhos, ventos, chuva, água que corre, risos, suspiros, respiração. Em cada prazer há um consolo pros sentidos. Em cada alegria, um acalento para o coração. Assim se é feliz.    
         

27 de fev de 2013

Suspiro besta





Lua saindo do mar
E meu coração
se afogando





17 de jan de 2013

Two Birds






Hoje ouvi numa rádio qualquer que o número da sorte para aqueles do signo Touro é o 22.
Sorri com a coincidência e o sorriso se estendeu com a lembrança do nosso começo.
Uma vez li que um romance torna-se fascinante por suas misteriosas coincidências.
Lembrei-me, como se fosse ontem, do nosso primeiro encontro. Vesti minha saia favorita, em busca de sorte. Acreditei que o truque havia funcionado assim que me deparei com uma conta no valor redondo e exato de vinte e dois reais. Vinte dois novamente. E o mistério não acabou por aí.
Depois teve a mesa do restaurante involuntariamente escolhida por nós dois, de número 22. O display do elevador. O banco amarelo. Os vagalumes vistos na penumbra da serra.
et cetera, et cetera.
Nosso começo foi repleto de coincidências. Incrementos pra que eu me fixasse em você.
Hoje, talvez por mera distração, não as encontro com a mesma frequência. E nem precisa, porque já fixamos. Não precisamos mais da misteriosa cola dos destinos criptografados.
As coincidências podem ser o combustível da paixão, mas é o carinho o que faz mover o amor.

E ainda existem pessoas que não acreditam em coincidências. Como eu.

1 de jan de 2013

2013


tudo conforme previsto
foi pra você
meu primeiro sorriso



14 de dez de 2012

Battle




sopro de vidro estilhaçado
olhos incendiados
a pele em pura febre

restos da sórdida batalha
contra o que não mata
mas profundamente fere

10 de nov de 2012

Pudera




pudesse refazer a nossa história
colocaria o fim pelo meio
criaria um recomeço que não veio
descartaria de nossas memórias
todas as rimas entre amor e dor

26 de out de 2012

Solidão




O tempo tudo cura. Ensinaram-me livros, canções e minha mãe. Uma verdade.
Depois de alguns meses de dor, veio a cura.
Dor não, agonia. Porque dor é quando machuca, fere, fura, pinça, rasga, corta.
Doeu no fim, pelo fim e para o fim. Mas depois não era dor, era agonia. Agonia doida, violenta, insone. Taquicardia e vícios mentais. Aflição sem fim.
O recomeço não dói, aflige.
Até que, quando você vê, já é maio, outra estação, quase um ano se passou. Você aprendeu a ser só. E, sorrindo, dá boas vindas à solidão. 

5 de set de 2012

Eufemismo


Foi uma, foram duas, foram três. A quarta foi ela. Depois, outras cinco, dez... Deve ter chegado a cem. Enfim. Ela não foi a primeira, nem seria a última. Sabia disso. Mas também sabia que seria, de algum modo, parte dele. Parte de uma parte já repartida em tantas outras partes. Qual seria a relevância? Cada uma teria a sua. Quase irrisória. Apesar disso, ele se deu pra ela, de verdade e por inteiro (o que disse várias vezes, pela própria boca). E ela deu-se, também, por inteiro, para restar somente uma parte. Suprassumo do desconexo. A desmatemática das relações humanas.  Foi em uma tarde no rio - úmida, porém repleta de fogo. Fogo e água juntos. E muito suor. Beijos na boca, no corpo todo. Língua no corte, na cicatriz. Estancando o sangue e fazendo jorrar o amor.    

28 de ago de 2012

Yellow Tree


Porque chovia intensamente e estava tudo gris, monocromático, a árvore de flores amarelas sobressaía na paisagem, como se estivesse acesa. Não seria o contrário e o sol que ressaltava as cores? Mas a árvore amarela  destacava-se no dia cinza. Destacava tanto que parecia até que embaixo dela ensolarava. Quis chegar mais perto. Talvez fosse verdade que de suas pétalas eram lançados raios de sol. Alcançou sua sombra iluminada - sol não fazia,  mas tinha algo de mágico no ar que a circundava. Algum encanto capaz de arrepiar a pele e encher a alma de alegria.


22 de ago de 2012

Sede



"Talvez fosse melhor não matar a sede, ou não lhe restaria mais desejo algum", pensou. Descartou imediatamente tal ideia, por achá-la meio amalucada. Bebeu tudo o que pôde, até saciar-se por completo. Depois se arrependeu. Havia pensado certo. Era melhor ter mantido na boca seca a vontade da água. Estava agora vazia de tudo, cheia de nada. Toda insaciada.




15 de ago de 2012

02:25 pm

Sentou-se no banco mais sombreado da praça que ficava no caminho para o local do encontro marcado. O que iria fazer era muito importante. Precisava pensar.
Pensou, pensou. Imaginou cada detalhe do ato iminente. Ensaiou e reensaiou, em sua mente, cada gesto e cada palavra da próxima atitude. 
Em vão. Quando aconteceu, deu-se tudo diferente. Contraditórios atos-pensamentos.
Desde esse dia, ela primeiro age pra depois pensar.   



9 de ago de 2012

Parênteses




Para Clarice, as sexta-feiras tem três pontinhos, os sábados exclamações e os domingos parênteses, nos quais sempre encaixa João. Sempre e ainda João. Não consegue evitar. E todo domingo ela se perde nas lembranças. Nesse último, lembrou que certa vez João havia lhe dito que os sonhos existiam pra que mesmo dormindo as pessoas pudessem ficar juntas. Isso fazia muito sentido quando o tempo que passavam lado a lado e acordados não era suficiente para matar a vontade de estarem juntos, usufruindo da companhia um do outro. Hoje Clarice já nem sonha. E quando sonha é só tormento. Desejos que afligem. Perde-se no tempo e já nem lembra mais quando foi exatamente que João deixou de ser seu pensamento preferido.

5 de ago de 2012

perigo

você zabaneiro
eu imaculada
estava na cara
a grande enrascada 



o prazer de usar a linguagem é um dos prazeres humanos maiores.